Os exageros cometidos por narradores e jornais esportivos estão criando uma guerra infrutífera
Brasileiro é mal educado? A Olimpíada no Brasil está
servindo para muitas coisas, muito pouco para o esporte brasileiro, é
verdade. Não temos nenhum projeto pós Olimpíada para ajudar na educação e
projeção dos nossos jovens. Mas podemos ver como o mundo nos vê,
colonizados, colonizadores ou não.
Vários episódios têm ocorrido paralelamente aos que são transmitidos
ao público. O foco é apenas o esporte, e essa afirmação não é nenhuma
crítica, mas uma constatação, uma vez que é assim mesmo que se procede
no mundo todo. Mas vamos as minhas observações, cujo conteúdo é apenas
um olhar sem a pretensão de ser verdade absoluta. Até porque se trata
apenas do início e não de conclusão de pensamento.
Primeiro, nossos atletas, com raríssimas exceções, estão com as
emoções acima do normal. A pressão da família, do público e essa forma
emotiva de conduzir tudo não combina com o equilíbrio emocional que o
esporte de alto rendimento exige. A emoção não está canalizada para o
sucesso, mas para o drama final. Chora porque perde, chora porque ganha.
E neste caso fica mais fácil perder mesmo sendo melhor que o
adversário.
Não somos inimigos em nada. No máximo adversários que devem ter o direito de torcer pelo seu país e mais nada
Segundo, a torcida brasileira está causando muito durante a prática
de esportes que exigem concentração dos atletas. Por isso pode até
passar a impressão que somos mal educados, e somos, mas neste caso sem
culpa popular. Foram convidados para uma festa torcedores de jogos de
futebol e se estão se comportando da mesma forma. A culpa não é do
público e sim da nossa história política que sempre nos privou de bons e
variados espetáculos e de esportes que ficam, no máximo, até classes A e
B. Como querem que o povo torça? Ele vai fazer da forma que sempre fez.
É uma torcida de jogo de futebol, nada mais.
Terceiro, os exageros cometidos por narradores e jornais esportivos,
tanto do Brasil quanto da Argentina, estão criando uma guerra
infrutífera e desnecessária entre estes dois povos. A vítima, mais uma
vez, é o povo. Não somos inimigos em nada. No máximo adversários que
devem ter o direito de torcer pelo seu país e mais nada. Isso é perigoso
e pode levar a tragédias em eventos que deveriam ser apenas para
diversão.
Quarto, um atleta francês da esgrima deu um exemplo magnífico,
pedindo para dar o ponto que ele tinha recebido ao
brasileiro(adversário) pois havia um erro no toque não percebido pelo
árbitro.
Outro também francês, desta vez do salto com vara, foi babaca e muito
infeliz, nos tratando como colônia de terceiro mundo. Conclusão: gente
boa e babaca tem em todo lugar, inclusive nos que se acham mais chiques.
Quinto, quanta autoestima tem os atletas de países de primeiro mundo,
cuja educação é de melhor qualidade e a democracia é perene. Controle
emocional, soberania e liberdade para trabalhar.
Ganhando ou perdendo a vida continua. É visível a saúde física e
tranquilidade mental dos atletas. Quanta dor tem os atletas de países
cuja luta pela sobrevivência e pela democracia ainda é uma constante.
Nos seus rostos, a frustração e o medo são evidentes, na vitória
desabam.
Sexto, já houveram muitas outras Olimpíadas. Muitas outras irão
acontecer. Mas nenhuma em uma cidade tão maravilhosa quanto o Rio de
Janeiro. A beleza natural é insuperável. Mas ainda não era hora de
fazermos esta festa olímpica. Temos outras prioridades pelo país, mas
agora é tarde, vamos torcer para um encerramento digno e bonito. Depois
que os convidados forem embora vamos ver como fazer para pagar as
despesas.
Sétimo, abaixo os xingamentos, a falta de educação e as
interferências na hora da concentração dos atletas em esporte que
silêncio é importante. Uma coisa tenho certeza: nunca mais o mundo vai
torcer do mesmo jeito para seus atletas, pois ainda acho que é melhor
gritar de alegria do que jogar banana ou imitar macacos em estádios.
Isso os ditos civilizados fazem mais do que nós e também é falta de
educação. Usando um velho ditado tupiniquim: não vem não que vocês
também sentam no rabo para falar dos outros.
JOÃO EDISOM DE SOUZA é cientista político e professor universitário em Mato Grosso.